quinta-feira, julho 17, 2008

Nunca perder de vista o gráfico de uma vida humana, que se não compõe, digam o que disserem, de uma horizontal e duas perpendiculares, mas sim de três linhas sinuosas, prolongadas no infinito, incessantemente aproximadas e divergindo sem cessar: o que um homem julgou ser, o que ele quis ser e o que ele foi.


in Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar



terça-feira, julho 15, 2008

Dizia a mim mesmo que era completamente vão esperar para Atenas e para Roma essa eternidade que não é concedida aos homens nem às coisas e que os mais judiciosos dentre nós recusam mesmo aos deuses. Estas formas sábias e complicadas da vida, estas civilizações perfeitamente à vontade nos seus requintes de arte e felicidade, esta liberdade do espírito que se informa e que julga dependiam de possibilidades inumeráveis e raras, de condições quase impossíveis de reunir e que não devíamos esperar que durassem. Destruiríamos Simão; Arriano saberia proteger a Arménia das invasões alanas. Mas outras hordas viriam, outros falsos profetas. Os nossos fracos esforços para melhorar a condição humana seriam apenas distraidamente continuados pelos nossos sucessores; pelo contrário, o grau de erro e de ruína contido no próprio bem cresceria monstruosamente ao longo dos séculos. O mundo, cansado de nós, procuraria outros senhores; o que nos havia parecido sábio parecerá insípido, abominável o que nos pareceu belo. Como o iniciado mitríaco, a raça humana tem talvez necessidade do banho de sangue e da passagem periódica pela fossa fúnebre. Via regressar os códigos selvagens, os deuses implacáveis, o despotismo incontestado dos príncipes bárbaros, o mundo fragmentado em Estados inimigos, eternamente vítima da insegurança. Outras sentinelas ameaçadas pelas flechas iriam e viriam no caminho da ronda das fortalezas futuras; o jogo estúpido, obsceno e cruel iria continuar, e a espécie, ao envelhecer, acrescentar-lhe-ia, sem dúvida, novos requintes de horror. A nossa época, de que eu conheço melhor que ninguém as insuficiências e as taras, seria talvez um dia considerada, por contraste, como uma das idades de ouro da humanidade.

Natura deficit, fortuna mutatur, deus omnia cernit.


in Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar

segunda-feira, junho 02, 2008

Uma nova perspectiva




Não há duas sem três

Eu não sei se é uma nova técnica para assustar os outros pilotos, mas está a dar resultado. Uns caem, os outros tombam...



terça-feira, maio 20, 2008

Gian Lorenzo Bernini (1598-1680)

Pluto and Proserpine


Appolo and Daphne

domingo, maio 18, 2008

segunda-feira, maio 12, 2008

Escolhas musicais

Nos últimos tempos não tenho prestado muita atenção à música escolhida, é verdade. Também é verdade que, muito frequentemente, as escolhas são bastante questionáveis. E digo questionáveis para dizer o mínimo! Já lá ouvi de tudo, desde os Bee Gees, à Celine Dion, passando por Bonnie Tyler...

Qual não foi o meu espanto, quando no meio dos abdominais começo a ouvir...


segunda-feira, maio 05, 2008

domingo, maio 04, 2008

O filho pródigo

Para ser mesmo excelente devia ter acontecido na corrida anterior...






sábado, maio 03, 2008

Patti

Apenas conhecia de nome e já tinha ouvido o "Because the night". Para além disso, nada.

O início com "Smells like teen spirit" deixou-me confusa, mas no bom sentido da palavra. Depois vieram os gatos e eu pensei imediatamente que iria gostar. E confirmou-se!


terça-feira, abril 08, 2008

O Domar da Harpa

“Certa vez, em tempos idos, na Ravina de Lungmen havia uma árvore Kiri, verdadeira rainha da floresta. Erguia a cabeça para conversar com as estrelas; as raízes desciam fundo no solo, emaranhando as suas serpentinas brônzeas nas do dragão prateado que dormia por baixo. E aconteceu que um mago poderoso fez desta árvore uma harpa maravilhosa, cujo espírito obstinado havia de ser domado apenas pelo maior dos músicos. Durante muito tempo o instrumento foi estimado pelo imperadores da China, mas foram em vão todos os esforços dos que, à vez, tentaram extrair melodias daquelas cordas. Em resposta às melhores tentativas soltavam-se da harpa apenas notas roufenhas de desprezo, em desarmonia com as canções que eles gostariam de cantar. A harpa recusava reconhecer um mestre.

Por fim chegou Peiwoh, o príncipe dos harpistas. Com a mão meiga acariciou a harpa, como quem tentasse acalmar um cavalo obstinado, e tocou suavemente as suas cordas. Cantou a natureza, as estações, montanhas altaneiras e águas correntes, e todas as memórias da árvore despertaram! O doce sopro da primavera tornou a brincar nos seus ramos. As jovens cataratas, dançando pela ravina, riram-se para as flores em botão. Em seguida escutaram-se as vozes sonhadoras do Verão, com a sua miríade de insectos, o gentil tamborilar da chuva, o grito do cuco. Escutai! ruge um tigre – o vale volta a responder. É Outono; na noite deserta, afiada como uma espada brilha a lua sobre a erva molhada de geada. Agora reina o Inverno, e pelo ar cheio de neve redemoinham flocos de cisnes, e pedras de granizo ruidosas fustigam os troncos numa delícia feroz.

Então Peiwoh mudou de tom e cantou o amor. A floresta balançou como um mancebo ardente embrenhado em pensamentos. Lá alto, qual donzela altiva correu uma nuvem reluzente e linda; passageiras apenas, longas sombras rastejaram pelo solo, negras como o desespero. De novo o tom mudou; Peiwoh cantou a guerra, o embater do aço e os corcéis em tropel. E na harpa cresceu a tempestade de Lugmen, o dragão cavalgando o corisco, a avalanche tempestuosa embatendo pelos montes. Em êxtase, o monarca celeste questionou Peiwoh quanto ao segredo desta vitória. «Senhor,» replicou ele, «outros falharam porque apenas se cantaram a si próprios. Eu deixei que a harpa escolhesse o seu tema, e não soube verdadeiramente se a harpa era Peiwoh, ou se Peiwoh foi a harpa.»”


in O Livro do Chá, Kakuzo Okakura

segunda-feira, abril 07, 2008

I know, it’s only rock ‘n’ roll but I like it

Nem sempre os títulos são um espelho da obra. “Se numa noite de Inverno um viajante” só poderia ser um título de um bom livro. Mas Rock ‘n’ roll parece-me ser um título bastante hermético para uma peça, apesar de a posteriori fazer todo o sentido.

A forma de abordar o tema é original, a cenografia e a escolha musical são excelentes. Os desempenhos do Rui Mendes e da Beatriz Batarda fazem jus à reputação que os precede. Apenas acho que o “Jan” merecia um actor a sério…





P.S.: Peço desculpa, mas não consegui encontrar a versão original...

domingo, março 30, 2008

Meravigliosa creatura

Apesar de parecer, não estou a enveredar pelo ramo automóvel... Um destes dias, estava a ver televisão, ou melhor estava a aproveitar o tempo dos anúncios para fazer outras coisas (enquanto aquilo que eu realmente queria ver não começava), quando comecei a ouvir uma música que me despertou a atenção.

"Molti mari e fiumi
Attraverseró
Dentro la tua terra
Mi ritroverai
Turbini e tempeste
Io cavalcheró..."

Não consegui perceber mais, mas já fiquei satisfeita. Por ironia do destino, acabei por poder ouvir o original. E claro, ouvi o CD até à exaustão para tentar perceber o resto da letra...


quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Mudei-me

Para aqui:

www.abat-jour.blogs.sapo.pt

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Once

Quando li a descrição do filme, onde era feita alusão ao facto de ser um musical dos tempos modernos, confesso que fiquei um bocadinho desconfiada. Porém, todas as minhas desconfianças se dissiparam depois de ver os primeiros 10 minutos do filme. Já era tempo de ser feito um musical em que as personagens não começam subitamente a cantar, por tudo e por nada, nas situações mais comezinhas do dia-a-dia, muitas vezes imbuídas de uma alegria artificial e irritante.

A simplicidade da história, da música e do trabalho de realização aproximam verdadeiramente este filme do público. Espero sinceramente que venha a estar num cinema perto de nós!


domingo, janeiro 27, 2008

The word of God

«Thomas Nelson, which was once owned by a former door-to-door Bible salesman, was bought in 2005 for $473m. And secular publishing houses have also got religion: HarperCollins bought Zondervan, a religious book publisher, in the late 80’s, and now most mainstream publishers are trying to produce their own Bibles. As a result, all the tricks of the publisher’s trade are being applied to the Bible.
Consider product proliferation. Thomas Nelson publishes 60 different editions of the Bible every year. The Good Book now comes in all colours, including those of your college. There are Bibles for every sort of person, from “seekers” to cowboys, from brides to barmen. There is a waterproof outdoor Bible and a camouflage Bible for use in war zones. The “100 minute Bible” summarises the Good Book for the time-starved.
Consider user-friendliness. There are prayer books in everyday vernacular or even street slang (“And even though I walk through/The Hood of death/I don’t back down/for you have my back”). Or consider innovation. In 2003 Thomas Nelson dreamt up the idea of Bible-zines – crosses between Bibles and teenage magazines. The pioneer was Revolve, which intercuts the New Testament with beauty tips and relationship advice (“are you dating a Godly guy?”). This was quickly followed by Refuel, for boys, and Blossom and Explore, for teens.
There are toddler-friendly versions of the most famous Bible stories. The “Boy’s Bible” promises “gross and gory Bible stuff”. The “Picture Bible” looks like a super-hero comic. “God’s Little Princess Devotional Bible” is pink and sparkly.
There are about 900 English translations of the Bible, ranging from the grandiloquent to the colloquial. There are translations into languages, such as Inupiat and Gullah, that are spoken by only handfuls of people. Bob Hudson, of the American Bible Society, wants everybody on the planet to be able to claim that “God speaks my language”. A couple of eccentric geeks have even translated the Bible into Klingon, a language spoken only by scrofulous space aliens on “Star Trek”
.»

in The Economist

terça-feira, janeiro 08, 2008

Settimane difficile…

Lunedì: Andiamo! Uno, due, tre...



Martedì: l’ importante è il lessico. Concentrazione! (ma la musica è veramente brutta...)



Mercoledì: quattro, cinque, sei...



Giovedì: Provate a sentire se conoscete qualche parola...



Venerdì: Dopo i polmoni, il RIM (scusate lo scherzo...)

Sabato: l’ ultimo sforzo – vado dall stivale all’ isola della regina.

Domenica: DOMENICA!!!! Il dolce far niente!

terça-feira, janeiro 01, 2008

City of glass

He wanted to record things he had seen that day...
... before he forgot them.
Today, as never before: the tramps, shopping-bag ladies, drifters and drunks...
... the merely destitute to the wretchedly broken. They are everywhere.
Some beg with a semblance of pride: soon I will be back with the rest of you.
Other have given up hope.
Still others try to work for money.
Others have real talent.
The man improvised tiny variations, enclosed in his own universe.
It went on and on. The longer I listened, the harder I found it to leave.
To be inside that music: perhaps that is a place where one could finally disappear.
Far more numerous are those with nothing to do...
... hulks of despair, clothed in rags, faces bruised, bleeding.
They shuffle through the streets as though in chains.
They seem to be everywhere the moment you look for them.
There are others locked inside madness -
[TAKA TAKA TAKA T]
- unable to exit the world that stands at the threshold of their bodies.
[AKA TAKA TAKA TAK]
Perhaps if he stopped drumming, the city would fall apart.
There are those forever on the move, as if it mattered where they were.
Baudelaire: Il me semble que je serais toujours bien là où je ne suis pas.
"It seems to me that I will always be happy in the place where I am not."
Or, more bluntly: wherever I am not is the place where I am myself.


in City of glass, Paul Auster, Adaptation by Paul Karasik and David Mazzucchelli